Avaliar para avançar e crescer

em 8 de janeiro de 2020 por MAGIS Brasil

“A mediocridade não tem lugar na cosmovisão de Inácio” (P. Kolvenbach)

Estamos mergulhados numa cultura de resultados. Isso gera pessoas ansiosas, competitivas, frustradas, dependentes, carregadas de desencanto. A vida torna-se maquinal e rotineira, vivemos uma quantidade de experiências rápidas, amontoadas, superficiais. Sem possibilidade de uma avaliação tranquila para desfrutar das atividades mais simples e humanas, por viver num mundo que enfatiza o dever, as obrigações, o estar ocupado, o produzir. Poucos se perguntam: Que fazem? Por que fazem? Tem sentido o que fazem? Para quê e para quem fazem?

Método dos Exercícios: evolução lenta, longas preparações, repetições, avaliações. Para que haja uma experiência profunda e durável é necessário tempo (contrário do mundo atual: apressado, superficial, descartável). Não há progresso espiritual se não se tira o maior proveito possível das lições que nos vem das experiências anteriores.

Quando a avaliação é regra de ouro

Santo Inácio não é um teórico. Vive, observa, descreve, relata, avalia, e finalmente devolve à ação. Ele sabe que a experiência é mestra e formadora, mas somente a experiência relida, rebatida, solidificada, saboreada, ava-liada. O que constrói a pessoa interiormente é a retomada permanente das experiências que viveu. Aquele que não se debruça sobre o quanto viveu permanece na superfície de si mesmo.

O retorno a uma experiência anterior através da avaliação (exame) é um exercício de discernimento (escuta interior, ressonâncias, sentir-se afetado, tocado). É estar atento às lições  de Deus, às marcas que Ele vai imprimindo em nossos corações. Significa voltar e querer voltar onde já esteve o Espírito; trazer à memória para saborear de novo.  “Aquilo que a memória amou fica eterno” (Adélia Prado).

Trata-se de conhecer e de se apropriar da maneira de agir de Deus. Significa, sobretudo, acolher aqueles momentos densos, que foram como que irrupção de Deus, surpresa e novidade que nos afetaram e que nos conduzem a uma atitude de louvor e agradecimento.

Avaliar é reviver, recordar, visitar de novo aquilo que o coração guardou, é muito mais um retorno aos sentimentos (impacto afetivo) – “o afetivo é o efetivo”.  Na dinâmica dos Exercícios Espirituais só acontece uma experiência sempre que se dá uma modificação afetiva. A avaliação não é uma leitura moralista dos atos externos (o certo e o errado).

Na avaliação, trata-se de um método de decantação progressiva, de concentração sobre aquilo que é essencial, iluminante, nutriente. É deixar o superficial inútil para deter-se nos aspectos que foram fecundos. É estar aberto às surpresas e novidades da vida. Na avaliação, trata-se de uma sabedoria espiritual que diz que a atenção não pode atender a muitas coisas ao mesmo tempo, sob pena de se perder no meio delas e não obter nenhum fruto.

A avaliação ajuda a perceber

O fruto vem da atenção que se concentra, não em muitas coisas, mas no essencial. O que sacia e satisfaz nosso interior não é o muito saber, mas sentir e saborear as coisas internamente. Através da avaliação realiza-se um processo de interiorização  (ir até às raízes do coração) e uma assimilação progressiva de um determinado conteúdo. Através da avaliação temos acesso ao manancial de energias criativas, de iniciativas, de impulsos para uma permanente busca.

Nesse sentido, a avaliação passa a ser o lugar onde se elabora a nossa sensibilidade mais profunda, é o espaço contemplativo onde a vida é lida e saboreada em todas as suas dimensões, onde cada fato, cada experiência, cada momento, mesmo os mais insignificantes, adquirem uma amplitude bem maior.  Avaliar ajuda a tomar consciência do fio de ouro, o processo de continuidade, a sequência natural dos conteúdos saboreados.

A pessoa inteira se recolhe para o essencial e colhe o fruto maduro. Este fruto é o “trampolim” para o passo seguinte, que é a avaliação que não se fixa no passado, mas é abertura para o futuro: acolhe as experiências passadas e impulsiona para o novo.

Santo Inácio não se contentava e nem se acomodava naquilo que conseguia. O fruto conseguido era ponto de partida para algo novo. Na dinâmica do magis, impulso a buscar mais, o maior, pondo o coração naquilo que se faz.  

Texto Bíblico  Mc 6, 30-44

 

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