Cerrado e Pantanal: Conhecer para Amar e Servir

em 29 de dezembro de 2020 por MAGIS Brasil
Animado pela Campanha Ser Mais Amazônia, o Centro MAGIS Burnier vivenciou, no último semestre, um ciclo formativo convidando os e as jovens a conhecer mais sobre o Cerrado e o Pantanal.

Inspirado nas dimensões do subsídio da Campanha (conhecer, amar e servir), as juventudes do Centro-Oeste puderam contemplar e aprofundar o olhar sobre o chão que pisam. Ampliando, portanto, o horizonte de que Ser Mais Amazônia não é só a Amazônia em si, mas também toda a vida que envolve onde estão. E confirmando, portanto, o que o Papa Francisco sempre reforça: Tudo está interligado¹.

Nesse movimento de despertar o olhar, foi sendo construído um itinerário coletivo com vários rostos, atuações e experiências, mas todos com um objetivo único: cuidar da Casa Comum.

Num caminho orante, formativo e partilhado, chegou-se a cinco temas fundantes a fim de inquietar os e as jovens sobre as riquezas, as ameaças, as lutas e os apelos para que também cuidem desses biomas.

O primeiro encontro, que aconteceu em agosto, trouxe como tema: Conhecer para Amar e Servir. Pôde-se contar com a rica partilha dos convidados André Siqueira (ONG Ecoa – Ecologia e Ação) e Isolete Wichinieski (Coordenação Nacional da Comissão Pastoral da Terra – CPT e colaboradora da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado), que apresentaram características gerais sobre os povos desses territórios, como se relacionam com os biomas; sobre a riqueza e importância desse lugar de berço das Águas; sobre o quanto a degradação não prejudica só os animais, as florestas, mas também as pessoas. E finalizou-se esse momento com o mantra “tire as sandálias, o chão em que piso é cerrado, é terra sagrada.”

 

Em setembro, o segundo encontro contou com as convidadas Raimunda Nonata (Quebradeira de coco, quilombola e agricultora – Comunidade Quilombola Cocalinho, Parnarama – MA) e Miraci Silva (Animadora de sementes e agricultora – Assentamento Roseli Nunes, Mirassol D’Oeste – MT) para ser saboreada a temática: Povos do território: uma história de cuidado com a Casa Comum. Foi um encontro de muita alegria, sentida em cada vivência e sabedoria partilhadas. Uma alegria sóbria, consciente das dificuldades, mas ao mesmo tempo moveu o coração. Então, comemorando o Jubileu da Terra, os expectadores foram convidados a perceber a vida em harmonia; a perceber que é na diversidade, seja de dons ou de sementes, que a gente segue buscando uma alimentação saudável para o corpo e para o espírito, livre de agrotóxico e na simplicidade de Deus que se manifesta na vida desses povos. Manifestação que vimos no anúncio de uma vida doada pelo Bem Viver, mas também na denúncia da vida ameaçada pelo agrotóxico, pela monocultura, pelas mineradoras. Saiu-se com o coração ardente de ver tanta beleza, entendendo-se que povo do Cerrado e do Pantanal “é um povo que não desanima muito, ao contrário, canta”, como disse dona Raimunda Nonata.

 

No terceiro encontro, em outubro, celebrou-se o mês missionário com a experiência de duas jovens: Cristal Emily (Coletivo Socioambiental Filhas da Terra – Coletivo Feminino Periférico que tem por objetivo fomentar a educação e conscientização ambiental no DF) e Emília Costa (Comunidade Quilombola Santo Antonio do Costa – São Luís Gonzaga – MA e articuladora do Movimento Quilombola do Maranhão – Moquibom). Através de suas partilhas, as jovens fizeram os/as expectadores mergulharem na temática do encontro: Juventudes – voz e vez no cuidado dos Biomas. Assim, percorrendo o contexto urbano periférico e também rural, teve-se a oportunidade de perceber a importância do trabalho em rede, da questão de gênero nas relações socioambientais, do diálogo intergeracional, de fazer memória da história da comunidade, de criar laços de pertencimento com ela e, principalmente, de como as/os jovens podem ser agentes promotores de mudanças. Por fim, em meio a tantas sabedorias partilhadas, essas duas jovens mulheres afirmaram que “Não existe quem é melhor nem quem é pior, nem o campo nem a cidade, todos somos filhos da terra e todos lutam pelo bem comum” (Emília) e que “a educação é fundamental para travar essa batalha por uma juventude com mais vez e voz” (Cristal).

 

Em novembro, o tema foi: Políticas Públicas: a importância da cidadania para proteção dos Biomas. Claudia Sala de Pinho (Rede de Comunidades Tradicionais Pantaneiras) e Valéria Santos (Agente da CPT e integrante da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado) apresentaram, no quarto encontro, o conceito de políticas públicas de estado e de governo, alertando para perceber as que emancipam os povos e as que apenas expandem o capital; a importância da organização social para pautar e cobrar políticas públicas; a complexidade da implementação que necessita acompanhamento e para isso requer organização das pessoas em coletivos; a luta por visibilidade social e política para os povos, dentre outras. Como disse Cláudia: “se a gente quer mudar alguma coisa nesse país, se a gente quer mudar a realidade, a gente tem que participar, mesmo que nossa voz seja a única em alguns espaços”. E para concluir o encontro, disse Valéria: “mesmo em tempos escuros os povos cantam, os povos rezam”.

 

 

E com esse mote celebrou-se o advento do Natal no último encontro em dezembro com o tema Ser mais Amazônia: a espiritualidade que perpassa a proteção dos Biomas. A participação dessa vez foi de Edmo Flores, SJ (Serviço Jesuíta Pan-Amazônico – SJPAM), Eliane Xunakalo (povo Kurâ Bakairi, assessora da Federação dos Povos e Organizações Indígenas de Mato Grosso – FEPOIMT) e José Antônio Parava Ramos (Indígena do povo Chiquitano, atua com saúde indígena no povo Xavante e é conselheiro Fiscal da FEPOIMT). Eles foram provocando a abrir-se os olhos para a espiritualidade do encontro, que nos chama à reconexão com tudo que vive; para a necessidade do respeito a tudo que vive; para entender tudo como sagrado; para a cultura indígena que já tem essa tradição do cuidado. Nessa perspectiva, Eliane nos anima quando diz que “a gente precisa ser igual ao pequi (cheiroso, saboroso, resistente) e muitas vezes ser igual ao ipê, que o ano inteiro ninguém vê a beleza, mas quando chega em agosto o ipê ta ali, majestoso.”

 

E nesse caminho de muitas águas que se juntaram nesse ciclo, aprendeu-se que “a água carrega a memória de onde passou, ela tem história” (Isolete); que a vida é processo de cuidado como o do biscoito do coco babaçu que precisa de tempo, muitas mãos, mudanças, delicadezas até chegar à delícia que é; que muitos antes de nós doaram sua vida, como Dom Pedro Casaldáliga, para cuidar de tantas outras vidas (humanas ou não) e que é o pé firme na história dos povos e das comunidades que torna possível construir um projeto de vida engajado e cheio de sentido na busca por justiça socioambiental.

Todo esse processo deixou os participantes muito consolados ao contemplarem a ousadia do Reino que permanece, sempre. E, assim, seguem pedindo a Graça do primeiro encontro: “Dai-nos a Graça de nos sentirmos intimamente unidos”. E buscando Ser Mais Amazônia em todos os lugares.

 

Todo o ciclo foi transmitido ao vivo e ficou gravado nas redes sociais do Centro MAGIS Burnier (youtube e facebook) para que possam ser acessados posteriormente.

¹ Laudato Si

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