Curados para amar

em 25 de agosto de 2021 por MAGIS Brasil

“Em Manresa pedia esmola cada dia. Não comia carne nem bebia vinho, mesmo que lhe dessem. Nos domingos não jejuava e se lhe davam um pouco de vinho, bebia-o. E porque tinha sido muito vaidoso em cuidar do cabelo, como era costume naquele tempo, e ele o tinha muito bonito, resolveu deixá-lo à sua natureza, sem o pentear nem cortar, nem cobri-lo com alguma coisa, de noite e de dia. E pela mesma razão deixava crescer as unhas das mãos e dos pés, porque também nisto fora vaidoso” (Aut 19).

Escrito por Pe. Ednaldo Rodrigues Vieira, SJ

Após ser ferido pela bala de canhão, Inácio através das leituras da vida Cristo e da vida dos Santos confronta sua vida com estas ideias e deseja mudar. Sente que quando pensa em seguir sua careira de cavaleiro fica feliz, mas o desejo de seguir a Cristo deixa uma alegria mais duradoura e profunda, sonha em ir a terra santa, mas antes passa um ano de busca de Deus e de si em Manresa.

Arrepende-se de sua vida passada e começa a fazer penitência, embora de forma irrefletida maltrata seu corpo através de penitências corporais até descobrir que sua mudança de vida está para além disso, confrontando-se com sua situação de afastamento de Deus coloca-se frente ao crucificado perguntando: “Que fiz, que faço e que farei por Cristo” (EE 53). Reconhecendo-se pecador amado retoma seu caminho.

A cantora Flaira Ferro na música “me curar de mim” faz um percurso espiritual-psíquico de mudança de rumo, como Inácio mergulha no pior de si para emergir no melhor que pode ser:

Mas se eu não tiver coragem
Pra enfrentar os meus defeitos
De que forma, de que jeito
Eu vou me curar de mim?

Se é que essa cura há de existir
Não sei. Só sei que a busco em mim
Só sei que a busco
Me curar de mim

Num primeiro momento Inácio mergulha em escrúpulos que o levam próximo ao suicídio (Aut 24), mas pouco a pouco vai fazendo a experiência de um amor que o leva a vida plena, sentindo-se perdoado e amado. Agora seu sonho é partilhar tudo o que viveu na sua sede de ajudar as almas. Começa sua peregrinação primeiramente física (ir a Jerusalém), depois espiritual na busca da vontade de Deus; peregrinação que durou a vida inteira.

Inácio, o peregrino fez uma longa peregrinação até seu interior como dizia Drummond:

“só resta ao homem
(estará equipado?)
a dificílima dangerosíssima viagem
de si a si mesmo:
pôr o pé no chão
do seu coração
experimentar
colonizar
civilizar
humanizar
o homem
descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
a perene, insuspeitada alegria
de con-viver.

E você está disposto/a a fazer esta viagem? Deus te ama como você é, suas possibilidades e limites, alguns limites você pode superar outros acolher e quem sabe usá-los a seu favor. E como Manoel de Barros possa dizer: “todas as coisas apropriadas ao abandono me religam a Deus”.

No meu campo interior o que é joio ou o que é trigo, como convivo com os dois? Ou que fragilidade pode me religar a Deus?

Textos bíblicos: Mt 13,24-30 e 2 Cor 12,10-12

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