Amazonizar: indignação que leva a esperança!

em 4 de setembro de 2020 por MAGIS Brasil
O índio chorou, o branco chorou
Todo mundo está chorando
A Amazônia está queimando
Ai, ai, que dor
Ai, ai, que horror
(Lamento de Raça, de Emerson Maia – Boi Bumbá Garantido)

 

Por Lidiane Cristo e Victor Oeiras
Fotos: Rafael Oliveira

A Amazônia é considerada entre as regiões mais importantes para o equilíbrio do clima do planeta, produzindo chuvas para outras regiões, como o Sudeste e Sul do Brasil. Está entre as áreas mais vulneráveis do mundo em relação às mudanças climáticas, ao lado da Caatinga do Nordeste brasileiro. Somada a importância ambiental, guarda grande diversidade multiétnica e multicultural em seu território. Convidamos, assim, todos a se somar aos muitos gritos dessa região e dizer que é urgente o chamado a amazonizar, especialmente neste início de setembro.

Lá no século XIX, quando o Brasil ainda não era constituído por seus 26 estados e mais o Distrito Federal, as chamadas Províncias funcionavam como unidades administrativas no território brasileiro. Foi nesse contexto que se criou a Província do Amazonas, em 05 de setembro de 1850, sendo separada da Província do Grão Pará, atual estado do Pará, surgindo então uma primeira divisão territorial do que conhecemos hoje como o estado do Amazonas.

A data de 05 de setembro, por este acontecimento, foi escolhida em 2007 para celebrar o dia da Amazônia no Brasil, por meio da Lei Federal 11.621. Anos depois, a data passou a ter conotação internacional, recentemente ocupando maior evidência após a onda de incêndios florestais ocorridos no mês de agosto de 2019, episódio que ficou conhecido como “dia do fogo”.

Nessa ocasião, como massivamente divulgado pela imprensa mundial, interessados em derrubar áreas de florestas teriam se programado para iniciar um verdadeiro mutirão de incêndios criminosos que levariam à eliminação das áreas atingidas e danos irreparáveis à biodiversidade, ao que tudo indica, tendo como principal motivação a substituição da vegetação por pasto de forma ilegal.

Evidentemente, não foi (e não tem sido) uma causa natural, mas uma decisão humana, ultimamente motivada pela atual situação do Estado brasileiro. A falta de compromisso junto aos órgãos ambientais e o enfraquecimento das ações de proteção ao meio ambiente aumentaram nos últimos dois anos. Sem pudor, gestores políticos do País se aproveitam do momento de crise econômica e sanitária devido à pandemia por Covid-19, para deixar passar essa “boiada” evidenciando um projeto não comprometido com os biomas e seus povos, como a Amazônia e Pantanal. Enfim, têm levado à ruína décadas de construção de uma governança socioambiental.

“A agressão contra essa área vital da “Mãe Terra” e contra seus habitantes ameaça sua subsistência, sua cultura e sua espiritualidade” (ILSA, n. 44).

O desmatamento ilegal é apenas um dos muitos problemas que a região amazônica enfrenta. Como tantos outros, pode ser considerado o gatilho de um efeito dominó que afeta tanto o meio biofísico como os habitantes locais e as populações tradicionais, e tudo que os envolve, como seus modos de vida, suas relações com a terra e com as águas e o que nelas contém, suas formas de saber construídas por referência ao espaço físico para viver. Como nos alerta Papa Francisco, este bioma hoje é uma beleza ferida e deformada, um lugar de dor e de violência (Documento Final do Sínodo para a Amazônia, n. 10).

A biopirataria, o narcotráfico, a exploração sexual infantil pelos caminhos dos rios, os grandes projetos de “desenvolvimento” à época da ditadura militar que não privilegiaram o estudo às consequências ambientais e sociais, a grilagem de terras que incide na especulação imobiliária ou na implantação e expansão do agronegócio não adequado à região, o decréscimo no investimento em pesquisa científica nas instituições locais, políticas públicas que desrespeitam os saberes tradicionais e as peculiaridades da região, são exemplos de problemas gerais que desencadeiam um cenário catastrófico diante da ineficiência do Poder Público e dos interesses que colocam o lucro acima da vida. Um sistema não mais suportável pela mãe terra ou pelos pobres.

“Não há duas crises separadas: uma ambiental e outra social; mas uma única e complexa crise socioambiental. As diretrizes para a solução requerem uma abordagem integral” […] (LS, n. 139).

Em 2019, o Papa Francisco, ao presidir o Sínodo para a Amazônia, para além de pensar na evangelização dessa porção do povo de Deus, firmou uma preocupação integral com toda a vida, reafirmando insistentemente a importância de uma ecologia integral: “Diante da situação premente do planeta e da Amazônia, a ecologia integral não é só mais uma maneira que a Igreja pode escolher para o futuro nesse território, mas a única maneira possível, pois não há outra estrada viável para salvar a região” (Documento Final do Sínodo para a Amazônia, n. 67).

As consequências são lamentáveis para as condições de vida dos mais frágeis. Problemas semelhantes a esses podem ser vistos por todo o Brasil e em todo o mundo em cenários diferentes. Por isso, o amazonizar é apelo para todos.

“O nosso é o sonho de uma Amazônia que integre e promova todos os seus habitantes, para poderem consolidar o ‘bem viver'” (Papa Francisco, Exortação “Querida Amazônia”, n. 08).

Segundo Márcia Oliveira, doutora em Sociedade e Cultura na Amazônia, amazonizar é verbo que brota de uma dinâmica de resistência e guarda muitos significados. Entre as acepções, amazonizar convida ao respeito às identidades culturais construídas a partir da relação de respeito e convivência com a natureza.

Amazonizar, também e sobretudo, está para além das ações em um determinado bioma. Amazonizar ou ser mais Amazônia é abrir-se a aprender com a sabedoria dos diversos povos e sua relação com espaço e tempo onde vivem, com irmãos de geração presente e respeito às futuras, seja no campo ou na cidade.

Ser mais Amazônia é proposta que convoca as juventudes e a todas e todos que escutam um chamado presente onde há vida e contesta as suas violações em dignidade. Amazoniza-te!


Referências Bibliográficas

ASSEMBLEIA ESPECIAL DO SÍNODO DOS BISPOS PARA A REGIÃO PAN-AMAZÔNICA. Documento Final do Sínodo para a Amazônia: “Amazônia: Novos Caminhos para a Igreja e para uma Ecologia Integral”. 2019. Disponível em: http://repam.org.br/wp-content/uploads/2019/06/INSTRUMENTUM-LABORIS.pdf

BRASIL. Lei Federal nº 11.621, de 19 de dezembro de 2007. Institui o dia da Amazônia. Diário Oficial da União de 20 de dezembro de 2007. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2007/lei/L11621.htm

FERREIRA, João Paulo. O que celebrar no dia da Amazônia?. El País. 05 de setembro de 2018. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/09/05/opinion/1536161096_203719.html

FRANCISCO, Papa. Carta Encíclica Laudato Si’: sobre o cuidado da casa comum. 2015. Disponível em: http://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html

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JORNAL HOJE. Globo Play. Dados do INPE mostram aumento dos focos de queimadas no Brasil. 01 de agosto de 2020. Disponível em: https://globoplay.globo.com/v/8823025/

LOPES, Reinaldo José. Áreas úmidas da Amazônia são as mais vulneráveis às mudanças climáticas. Proclima. Programa Estadual de Mudanças Climáticas do Estado de São Paulo. 19 de abril de 2017. Disponível em: https://cetesb.sp.gov.br/proclima/2017/04/19/areas-umidas-da-amazonia-sao-as-mais-vulneraveis-as-mudancas-climaticas/

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