Outro olhar, outra visão

em 11 de novembro de 2020 por MAGIS Brasil

“Uma das verdades fundamentais  do cristianismo, verdade por demais  desconhecida, é esta: o que salva é o olhar”  (Simone Weil)

Vivemos sob o signo do olhar, sob o impacto da imagem, da sociedade do espetáculo. Nunca como hoje o olhar adquiriu tanta soberania e status diante dos outros sentidos. No entanto, é o sentido mais violentado pela quantidade de imagens despejadas sobre nós a todo momento. O ser humano primitivo tinha um olhar limitado pelas suas necessidades, já o ser humano moderno, devido à complexidade da vida, ao progresso da ciência e da tecnologia, está ficando com um olhar truncado pelas imposições artificiais criadas. Cerceado em sua visão, ele não sente a realidade, agredido pelo acúmulo de imagens, ele não se deixa afetar por nenhuma delas.

A urgência em ver tudo tira a atenção e o tempo necessário para poder olhar pausadamente. Pobre olhar! Prisioneiro do sistema, é manipulado e não dá sentido à realidade captada, não rompe, não vai além, não busca o novo nem faz mudanças. Portanto, um olhar desprovido de sentimento, de imaginação, de profundidade, de horizontes.

Vê tudo e não olha nada

Treinado para ver o mundo através da lente das grandes redes de poder, de manipulação e de acordo com seus interesses, o olhar estreita-se, o mundo torna-se opaco e a superficialidade da visão não capta o mistério das coisas e das pessoas.

O olhar contemplativo está perdendo sua força criativa. Marcado pela ansiedade de querer ver tudo ao mesmo tempo, a pessoa não é mais capaz de fazer uma pausa para se deixar ver pela realidade. Marcado pelo olhar do racionalismo, ela tudo examina, compara, esquadrinha, mede, analisa, separa, mas nunca exprime. Daí o olhar reprimido, desviado, insensível, frio, duro, ríspido. Este é o pecado contra o olhar: se tornar supérfluo e imediatista, olhar esquizofrênico e narcisista, olhar morno, sem vibração, sem brilho, sem assombro. Nesse olhar não há lugar para a admiração, nem para a acolhida e a presença do outro. Só existe o olhar que fixa, escraviza e aliena. Na verdade, o que imobiliza e petrifica é o olhar que se fecha no egocentrismo, que não se abre ao outro numa atitude de respeito, de fidelidade criativa. “Nossa civilização, que já ultrapassou a era do trabalho escravo, ainda está na era do olhar escravo” (Eugênio Bucci).

É preciso que o olhar busque a sua libertação de tudo aquilo que o oprime, o manipula e o intimida. Há necessidade de recuperar o direito de olhar, de ver e de ser visto. Um olhar gratuito e desinteressado, janela da alma, que expande o ser humano numa atitude acolhedora de tudo que o rodeia. Olhos que possibilitem o trânsito do olhar, revelando a interioridade e dialogando com o exterior, num movimento de ir e vir constante e interpelativo, onde ocorre a contínua criação de si, do mundo, do outro.

É urgente a conversão do olhar

É possível debruçarmo-nos sobre o mundo, a história, a vida, através do olhar. Recuperar o olhar que expressa acolhida e comunhão, olhar carinhoso que rompe a distância e a rejeição. O olhar verdadeiramente humano não é um olhar de medusa, possessivo, mas um olhar contemplativo, que admira e acolhe o ser olhado e comunga sinfonicamente com ele.

O olhar contemplativo, que vê todas as criaturas e todas as pessoas, admirando-as e amando-as na singularidade do seu mistério, é um olhar feliz, pacífico e encantado. Por ser um olhar maravilhado, quer ver e olhar, admirar e contemplar sempre mais em profundidade, comprometendo-se com a realidade que o cerca. Se nosso olhar se detivesse por um tempo em pousar e repousar no que ele vê, descobriria também que todas as coisas nos olham, que todas as coisas oram.

Texto Bíblico  Lc 6, 39-45 / Lc 2, 54-59

 

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