Inácio: da leitura do texto à leitura de si mesmo

em 16 de dezembro de 2020 por MAGIS Brasil

“Como era muito dado a ler livros mundanos e falsos, que costumam chamar de cavalarias, sentindo-se melhor, pediu que lhe arranjassem alguns deles para passar o tempo. Mas naquela casa não se encontrou nenhum dos que costumava ler. Deram-lhe então uma Vita Christi e um livro da vida dos Santos romanceada. Lendo-os muitas vezes, ia-se afeiçoando lentamente ao que ali estava escrito. Mas, deixando-os de ler, algumas vezes parava a pensar no que havida lido” (Aut. 5 e 6)

Tudo começou com a leitura de alguns textos. A leitura da vida dos Santos e da vida de Cristo significou para Inácio a abertura para outro modo de ser e de estar no mundo. Foi para ele a primeira porta de acesso ao Mistério. Tudo o que veio depois foi um livre consentimento ao processo interno que, a partir da leitura, foi se desenvolvendo. Observar e responder foi sua primeira responsabilidade.

Os textos só são realmente lidos quando começa a acontecer uma transformação interior. Começa a surgir uma travessia do texto escrito ao texto da vida. Leitura provocativa e questionadora, pois ela desmonta uma estrutura fincada em falsos fundamentos e desperta o desejo de construir a vida sobre uma nova base. Uma leitura conflituosa, marcada por resistências e medos, mas, ao mesmo tempo, uma leitura atenta e centrada, com pausas para reflexão sobre as reações que ela despertava. Inácio percebia que a leitura era uma forma de colocar seu mundo interior em ordem. “Não é o muito saber que sacia e satisfaz o interior, mas o sentir e saborear as coisas internamente” (EE 2).

Lentamente Inácio deixa de ser leitor-espectador das obras dos santos, interpretadas como façanhas, para converter-se em coautor da trama de Jesus, dos Apóstolos e dos santos nos quais está envolvido. Inácio demorou em alterar-se, isto é, em fazer de si mesmo objeto de observação. Ao mergulhar no mundo das fantasias faz com que outras dimensões de seu ser se despertem. Inácio começa a perceber-se em sua totalidade, numa profundidade até então desconhecida.

A passagem do imaginar ao imaginar-se é crucial

Uma vez imaginando-se, Inácio sente. No sentir conflui o conteúdo imaginativo com a pessoa que imagina. Inácio se encontrou consigo mesmo em seu sentir. Ter alcançado esta lucidez sobre o sentir supõe para Inácio começar a mudar o olhar, a reinterpretar-se de novo: seu passado, seu futuro, o novo caminho de vida inspirado nos santos e na vida de Jesus.

A experiência de Santo Inácio nos ajuda a ter um olhar contemplativo, ou seja, ler o que todo mundo lê, mas de um modo diferente. Uma leitura que nos afeta e nos conduz a uma leitura de nós mesmos, leitura que nos compromete com outra escrita, carregada de sentido, valor e de utopia. Leitura que nos faz peregrinos em direção a horizontes mais amplos. Hoje, já não somos mais capazes de ler, somos bombardeados por um acúmulo de informações que não nos ajudam na leitura orante da vida. Tal como a gordura não queimada que se acumula nas artérias e nos tecidos do corpo, a leitura apressada nos faz obesos na mente, na afetividade, no coração.

Sentir e saborear as coisas internamente

O ser humano moderno está adiposo no raciocínio, na imaginação, nos gostos e sentimentos. A nossa sociedade está mais atulhada de preconceitos que de gorduras, mais intoxicada de lugares-comuns que de hidratos de carbono. As pessoas se viciaram em estereótipos, juízos apressados, pensamentos tacanhos, condenações precipitadas, visões superficiais, decisões sem raízes. A imprensa alimenta-se hoje quase exclusivamente de cadáveres de reputações, de detritos de escândalos, de restos mortais das realizações humanas. A leitura deixou há muito de informar e provocar, para apenas seduzir, agredir e manipular. A notícia transformou-se em espetáculo, frequentemente trágico, polêmico e chocante, e quem sai perdendo é a verdade.  Só a parte morta e apodrecida da realidade, com suas tragédias e futilidades grotescas, é que chega aos nossos olhos.

A consequência está aí: um olhar envenenado conduz a uma leitura envenenada de nossa realidade interior. Não há mais uma passagem da leitura externa a uma leitura interna, uma leitura que nos aliena e não nos compromete com uma nova escrita.

Texto Bíblico Mt 19, 16-30

 

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