O relato do Peregrino | Autobiografia de Santo Inácio de Loyola

em 9 de junho de 2021 por MAGIS Brasil

“Quem me dera agora, que as minhas palavras fossem escritas! Quem me dera, fossem gravadas num livro!”

(Escrito por Pe. Felipe de Assunção Soriano, SJ)

O Ano Inaciano nos traz a consciência de que somos herdeiros de uma narrativa atualizada no tempo, como um “fogo que acende outros fogos” quando em contato com novas histórias. A conversão de Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus, é marcada pelo relato da “bala de canhão” que dá início a uma memória única e diversa que une pessoas, povos, culturas e nações sob a bandeira da Cruz de Cristo. Uma narrativa que venceu o tempo e que segue gerando um Corpo Apostólico a serviço da missão de Cristo. 

As memórias do peregrino são de fato uma autobiografia, pois, como gênero implica um pacto literário, porque não é um relato histórico ou documental, mas uma narrativa específica como um diário, poesia, carta onde se pode fazer um resgate de uma memória em primeira pessoa, ora de forma real baseado em fatos e vivências e ora pelo fio da ficção. Era isso que queria o Pe. Jerônimo Nadal (Padre jesuíta, espanhol e colaborador de Santo Inácio na composição das Constituições da Companhia) quando insistentemente pedia ao Pe. Inácio de Loyola que contasse como Deus o havia conduzido. 

Essa certeza, de que o relato do peregrino era mais do que uma tessitura de reminiscências do passado, foi o que conduziu o Pe. Nadal e, depois, o Pe. Luís Gonçalves da Câmara (Padre jesuíta, confessor e testemunha da história de Santo Inácio de Loyola) neste resgate. Eles foram às testemunhas das memórias do homem que hoje celebramos como relato da conversão de Inácio de Loyola e o itinerário das origens da fundação da Companhia de Jesus. Por esta razão, Pe. Nadal inicia a autobiografia, no seu prólogo, fazendo memória das três graças que nosso Pai Inácio pedira a Deus antes de morrer: “a primeira, que o instituto da Companhia fosse confirmado pela Sé Apostólica; a segunda, que fossem aprovados os Exercícios Espirituais; a terceira, que terminasse de escrever as Constituições”.

Um pedido especial

Tendo Inácio alcançado essas três graças da parte de Deus e vendo o bem que ainda se poderia alcançar, prontamente Pe. Nadal lhe pediu, a modo de testamento, como se faz em outros institutos religiosos, que contasse suas memórias e os conselhos que haviam de deixar à Companhia. Certo dia, durante uma conversa, Pe. Nadal pediu ao Pe. Inácio, insistentemente, que nos quisesse expor o modo como Deus o tinha guiado desde o princípio da sua conversão, a fim de que esse relato pudesse ser para nós como um testamento e ensinamento paterno.

Como Inácio resistia colocar mãos à obra, volta a insistir o Pe. Nadal: “Há quase quatro anos que vos peço Padre Inácio, não só em meu nome, como em nome dos outros [jesuítas], que nos conteis o modo como o Senhor vos foi conduzindo desde o princípio da vossa conversão, porque pensamos que isso será sumamente útil para nós e para a Companhia”. Determinado em alcançar mais essa graça, assim se expressa, o Pe. Nadal: “Se vossas ocupações não permitem que as escrevas nos dê a graça de apenas contá-las para que as coloquemos em papel, pois, se não o fazeis, nem por isso desanimaremos, mas teremos tanta confiança no Senhor, como se tivésseis escrito com vossa pena”. Não respondendo nada o Pe. Inácio, no mesmo dia, chamou o Pe. Câmara e começou a contar-lhe suas memórias.

O modo como o Pe. Inácio narra seus assuntos é com tanta clareza que parece tornar presente à pessoa que escuta aquilo que se passou, diz o Pe. Câmara em seu prólogo. Por isso não era necessário perguntar-lhe nada, porque dizia tudo que poderia interessar. Terminando os colóquios, seguia para o seu quarto e colocava tudo no papel do que o Pe. Inácio dizia. Ele mesmo esclarece dizendo que “esforçou-se por referir somente as palavras do Padre [Inácio]”. Pois, como constatou o Pe. Câmara nas palavras do Pe. Jerônimo Nadal: nada podia fazer mais bem aos jesuítas do que este relato, pois suas memórias eram como fundar novamente a Companhia de Jesus.

Inácio de Loyola dá a Companhia de Jesus um presente inestimável, pois aparece em suas memórias claramente como Deus o provou e confirmou. Ao iniciar o Ano Inaciano somos convidados a reconhecer que nos descaminhos da vida Deus pode aparecer em nossa rota e mudar tudo. Que a leitura da autobiografia de Inácio de Loyola seja aquilo que intuiu o Pe. Jerônimo Nadal no princípio da Companhia, como conclui o personagem bíblico Jó que, depois de um longo silêncio e muitos sofrimentos, decide falar de sua experiência pedindo que seja escrito na pedra o relato de sua amizade com o Senhor.

Texto Bíblico  Jó 19, 23-27

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