Risco de morte e convalescença

em 23 de junho de 2021 por MAGIS Brasil

“E assim quis nosso Senhor que naquela mesma meia noite se começasse a sentir melhor e foram crescendo tantas as melhoras que daí a alguns dias se pensou que estava fora do perigo de morte” (Autobiografia, n.3).

(Escrito por Fabrício Biela Vassoler, SJ)

Um ferimento em nosso corpo pode ser causado na pele ou até mesmo na parte interna. No entanto, temos também nossas feridas emocionais, existenciais e sociais. “No mundo de hoje, cheio de progressos, muitos jovens estão expostos ao sofrimento e à manipulação” (Christus Vivit, n. 71), clamando por uma libertação que seja gerada através do esforço individual e coletivo.

Assim como Inácio que em sua convalescência cuidou de suas feridas, sintamo-nos interpelados a fazer o mesmo. Ele, sem dúvida, sentiu nesse período de recuperação a maior dor de sua vida, porém sua paciência foi maior. Tenhamos também nós, com o olhar voltado para a pessoa de Jesus que “se faz presente nessas cruzes dos jovens, para oferecer-lhes sua amizade, seu alívio, sua companhia que cura” (Christus Vivit, n. 83), coragem para nomear as nossas feridas, descobrir as suas raízes e paciência para gastar o tempo necessário com cada uma delas. Assim, vendo novas todas as coisas em Cristo, encontraremos caminhos para aquilo que até então tem se instalado como problema ou obstáculo em nossas vidas. Sejamos desejosos e audaciosos primeiro conosco mesmo para que a nossa doação seja autêntica e alegre.

As feridas das juventudes

Cuidar de nossas feridas possibilita-nos cuidar de tantos outros feridos. O fruto da conversão de Inácio foi cuidar das almas. Que possamos nos colocar nas diversas e complexas circunstâncias juvenis, fazendo dessa presença um caminho de solidariedade, de cuidado e de conversão. As juventudes carecem de referenciais que se façam próximos, alcançáveis e interessados pelo seu cotidiano; para que possam ser acolhidos, escutados, valorizados e que conheçam os valores fundamentais da vida humana.

“A vida dos jovens está marcada por feridas de derrotas da própria história, dos desejos frustrados, das discriminações e injustiças sofridas, de não serem ou não se sentirem amados ou reconhecidos. São feridas corporais e psíquicas. Cristo, que aceitou passar pela paixão e pela morte, por meio da cruz, está próximo de todos os jovens que sofrem. Ademais, há feridas morais, o peso dos erros cometidos, os sentimentos de culpa por terem errado. Hoje, mais do que nunca, reconciliar-se com as feridas pessoais é uma condição necessária para uma vida feliz” (Documento Final da XV Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos. Os jovens, a fé e o discernimento vocacional, n.67).

Inúmeros desejos anseiam para serem germinados nos corações dos jovens. Inácio desejou fazer tudo para a maior glória de Deus, e esse desejo continua se renovando no coração de cada jovem que assim como ele torna-se um jesuíta. Alguns podem querer desenvolver o dom da comunicação, outros sentem-se atraídos por uma vida mais espiritual, de maior relação com Deus. Também há aqueles que carregam dentro de si uma sensibilidade artística, capaz de tocar tantos outros corações. Ou ainda quem se ver apaixonado por números, capaz de grandes soluções para a humanidade. Esses e mais uma infinidade de desejos e sonhos estão por aí, estão em nós, aguardando oportunidades e espaços para se realizarem e gerar vida.

É importante primeiro tomar consciência de como me encontro hoje: necessitado de ajuda, como Inácio em sua convalescência buscando viver um caminho de conversão pessoal? Se necessitado de ajuda, desejo me abrir e buscar caminhos que me ajudem? Se disposto a colaborar, quais os gestos ou ajuda concreta sou capaz de fazer hoje por um jovem que sofre?

Texto Bíblico  Lc 10, 25-37

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