Duas bandeiras

em 10 de junho de 2020 por MAGIS Brasil

“Em toda casa em que entrardes, dizei primeiro: Paz a esta casa!”  (Lc 10)

Sabemos por experiência que imagens movem as pessoas em todos os níveis. Para Santo Inácio as imagens tem o poder de mover o coração e ocasionar a conversão. Uma das formas de nos expressarmos simbolicamente é através das imagens. Elas são como a música que chegam ao mais profundo de nós mesmos e nos mudam, dando-nos luz e liberando forças.

Nos Exercícios Espirituais, Inácio nos anima a discernir as imagens que se nos apresentam, e a atuar em consequência. A exercitante aprende a distinguir as imagens autênticas das falsas e a permitir que as imagens verdadeiras o levem à uma conversão da mente e coração. As imagens nos convidam a ir além delas mesmas para encontrar-nos com nosso Deus.

Vivemos num mundo invadido pelas imagens

As imagens dos meios de comunicação parecem afastar nossa atenção do essencial. Estas imagens criam em nós um estado de excitação (violência, sexualidade, horror, destruição, guerras, consumismo, alegrias passageiras) que nos desconcertam e nos enchem de incerteza e insegurança. Difundem negativamente na oração, porque nos descentram. Ao contrário, as imagens dos EE nos centram e nos ajudam a ir mais além de nós mesmos, para Deus e para os outros, na oração.

A meditação das Duas Bandeiras (EE 136) nos oferece dois conjuntos de imagens: um que nos leva no sentido da falsidade, da preocupação pelas aparências e a dissipação, e o outro que nos chama à verdade e centralidade em Cristo. Na realidade, o processo de conversão de uma pessoa tem início com a mudança de imagem de si mesma, da própria identidade. E a conversão da identidade implica todo o ser (corpo, mente, afetividade, as sensações, os sentimentos, a fé, a relação mente-coração, a relação com os outros, etc.).

Inácio começou o processo para chegar a um conhecimento autêntico de sua identidade enquanto meditava a vida de Cristo. A imagem de si mesmo como cavaleiro mudou. Foi capaz de ver-se como “cavaleiro de Cristo” mais que como cavaleiro a serviço de um importante rei. Depois viu-se como um cavaleiro pecador e posteriormente como um cavaleiro ideal, entregue à conquista de si mesmo.

À medida que foi se exercitando neste desejo de ser um cavaleiro ideal sentiu-se forçado a mudar as imagens. Chegou a imaginar a si mesmo como um discípulo humilde e pecador do Senhor. Com frequência ele assinava suas cartas dizendo: pobre em bondade. Aceitou sua própria realidade diante de Deus: “um pecador amado por Deus e chamado para estar com Cristo pobre e humilhado”.

Com cada mudança de imagem, Inácio alcançou um conhecimento interior de suas consolações, desolações e possíveis enganos. O deslocamento da imagem de si mesmo foi uma série de conversões simbólicas diante de Deus, diante de si mesmo e diante do mundo. Estas imagens o enchiam de desejos, e também lhe ocasionavam grandes tormentos espirituais.

Encontrar a Deus em todas as coisas e todas em Deus

Isto aconteceu especialmente em Loyola e Manresa, quando pela primeira vez caiu na conta das moções espirituais e de sua incapacidade para conseguir, por seus próprios meios, uma total pureza de intenção. Superou, então, as imagens falsas de Deus, de si mesmo e do mundo, e descobriu a imagem autêntica de sua verdadeira identidade e de sua relação com Deus.

O Cristo pobre e humilde se converteu na principal imagem de Deus. Então, com uma autêntica humildade, pôde imaginar-se como um “pecador amado num mundo pecador”, chamado como os apóstolos a construir, com o Senhor, um mundo melhor. Então pôde “encontrar a Deus em todas as coisas e todas em Deus, e assim servir melhor ao Senhor”.

Sugestão de Leitura  EE 136-148 / Lc 10, 1-11

 

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