Tirando os sapatos

em 3 de janeiro de 2019 por MAGIS Brasil

O que é retirar o sapato?

O sapato representa o que está moldado a nosso pé, é a forma que acompanha nosso feitio, nossos calos. Deus diz ao ser humano como disse a Moisés: Descalça teus sapatos, retira de ti o habitual que te envolve e reconhece-rás que o lugar onde estás nesse momento é sagrado. Porque não há lugar ou momento que não seja sagrado (Rabino de Apta).

Habituamo-nos a determinados padrões e condutas que se tornam nosso sapato. E é com ele que caminhamos pela vida. Ele representa a proteção indispensável entre o ser humano e seu meio.

Nesse processo, há uma importante interação entre os pés e o sapato. Ele nos protege pela sola, mas para que cada passo seja confortável ao pé é preciso que o corpo do sapato vá se ajustando à nossa forma. O chão, no entanto, é o pavimento da vida e ele não se ajusta à nossa pisada. De tempos em tempos, temos que retirar o sapato e tocar o solo com a planta do pé. Pisamos então uma superfície irregular e desconfortável que pode até nos ferir.

Mas esta será uma experiência singela de libertação e expansão. “Sentir o chão” é reencontrar a vida. O caminhante precisa de sapatos para caminhar. Mas seu objetivo é poder descalçá-los no momento certo e constatar que a terra sob seus pés é santa. Essa terra, que é a essência, a base de toda a realidade, não é exatamente o que percebemos dentro de nossos sapatos. Adaptados, os sapatos nos parecem sempre mais seguros. Mas é do chão que vem o alicerce e o embasamento.

Como peregrinos em direção a nós mesmos, descobrimos, que somos todos fundamentalistas. Esses fundamentos são os sapatos com os quais caminhamos pela vida. Embora úteis, não deixam de ser uma superfície artificial que nos isola do solo vivo. Sair do aperto destes fundamentos nos faz conhecer o alívio e a possibilidade de expansão.

E aí, muito além da proteção e do conforto do sapato, podemos conhecer o que é santo, o que é essencial.

Ai daquele para quem os sapatos se fazem o único chão. De instrumentos para a caminhada, eles se fazem o próprio caminho. A recusa por tirar os sapatos e tocar no solo sagrado significa aderir a ilusões e fechar-se diante da surpreendente realidade. Esta relação tão ambígua entre o calçado e o caminhante, entre o fundamento e a essência ou entre a sola e o solo é o território para onde se dirige Abraão. Não se trata de uma trajetória para um lugar, mas sim de um caminho para si. Esta terra prometida está neste lugar, neste instante, que é santo. “Lech Lechá” – assim convoca Deus a Abra-ão – “vai a ti mesmo”, até a terra que te mostrarei.

Abandone o lugar-comum e vá em direção ao lugar que lhe mostrarei

Este lugar não é rotineiro, não é banalizado. Mas não é um lugar estranho para ele. E este é o jogo do peregrino. Na fala divina, o objeto não é a terra, mas o ir. O destino final é indefinido porque não é um lugar geo-gráfico. Trata-se de uma viagem que não é geográfica, mas antropográfica.

A grande compreensão de Abraão é que o “caminho para si”, este perambular em direção a si mesmo, é o compromisso com o que há de mais humano latente dentro dele. Abraão reconhece que está na busca de algo que já tem. Isso porque o caminho nada mais é do que ir em direção a si mesmo e a terra prometida nada mais é do que o processo de comprometer-se consigo mesmo. Abraão é o início de uma caminhada para uma nova terra. Ele não a conhece e nunca a realizará. Seu movimento, no entanto, o faz pai e fundador de um processo. Abraão vem fundar a possibilidade peregrina, os valores peregrinos. Abraão só existe na peregrinação, não é visível no sedentarismo, pois o sedentário só distingue a vontade pessoal. Esta é a razão de Abraão ter a tenda aberta a todos os lados.

Peregrinação não é ir a um lugar estranho: na peregrinação buscamos o que está em nós

A maior dificuldade das pessoas é reconhecer que a grande busca não é por algo exótico, diferente, nunca provado. Elas querem algo que já possuem. Só que estão tão afastadas de si mesmas que não tem acesso a certos aspectos importantes de suas vidas. Ir para si é acolher nosso destino, sabendo que ele não é produto de nossas decisões, mas de nossa interação com a vida. O caminho se faz das interações e não das escolhas e resoluções da vontade pessoal.

Ir para si é mudar nossa caminhada tantas vezes quantas se fizerem necessárias, reconhecendo alternativas que se apresentam em nossa vereda. Encruzilha-das sugerem que há sempre a possibilidade da surpresa. Peregrinar é caminhar sabendo que para cada passo há uma transversal, uma esquina onde as pessoas, o outro, a realidade, sempre oferecem alternativa de um novo destino (cf. Santo Inácio e sua mula). Porque os caminhos não são feitos de estrada, mas de encontros e de atenção. O que traça os percursos está no âmbito das interações, das trocas e das influências.

Texto Bíblico: Gn 18, 1-15 / 2Cr 36, 14-23

 

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