Fonte de solidariedade

em 16 de maio de 2019 por MAGIS Brasil

“A amizade com os pobres nos faz amigos do Rei Eterno” (Santo Inácio)

 Começamos citando uma experiência da vida de Inácio, uma experiência na qual ele escuta o chamado do sofrimento alheio. Depois de Manresa, considerado como lugar e momento decisivo de sua experiência de Deus, Inácio toma o caminho para Jerusalém e embarca em Barcelona, em direção à Itália. Acontece, então, um fato que o próprio Inácio nos conta no número 38 da Autobiografia:

Dos que vinham no navio, ajuntaram-se em sua companhia uma mãe, sua filha vestida com roupas de rapaz, e um outro moço. Estes o seguiam, porque também mendigavam. Chegados a um casario, encontraram um grande fogo e muitos soldados junto dele. Estes lhes deram de comer e muito vinho, parecendo terem intenção de embebedá-los. Depois os separaram, colocando a mãe e a filha num quarto em cima, e o peregrino com o moço no estábulo. Mas, quando chegou à meia-noite, ouviu que lá em cima se erguiam grandes gritos. Levantando-se para ver o que era, encontrou a mãe e a filha embaixo no pátio, muito chorosas, lamentando-se de as quererem forçar. Veio-lhe com isto um ímpeto tão grande, que se pôs a gritar, dizendo: ‘Isto se há de sofrer?’ e semelhantes queixas. Dizia-as com tanta eficácia, que todos os da casa ficaram espantados, sem que ninguém lhe fizesse mal algum. O moço fugira e todos os três começaram a caminhar assim de noite.”

Este fato da vida de Inácio tem um profundo significado. Ele escuta os gritos de sofrimento de duas indefesas mulheres. Ao ouvir esses gritos, levanta-se de imediato, sem considerar outras circunstâncias (nem seu cansaço, nem sua inferioridade) e atua sem temor, com ímpeto e, como ele mesmo diz, com eficácia. Inácio acabara de fazer sua grande experiência mística em Manresa, e por sua forma de reagir e atuar descobrimos que esta experiência lhe fez especialmente sensível e ativo diante dos sofrimentos dos outros e o leva a intervir decididamente em favor dos mais fracos, sem pensar muito nas consequências.

Uma experiência autêntica de Deus

Essa experiência inaciana nos sugere algo que é de uma importância decisiva. Ou seja, que na experiência autêntica de Deus, encontramos o impulso mais forte, mais decisivo, mais libertador para responder, sem ambiguidades, ao chamado dos excluídos. É precisamente a força da experiência de Deus a que nos dá a capacidade de vencer todas as resistências internas e externas que nos aconselhariam fazer ouvidos surdos aos gritos daqueles que sofrem.

Ante o clamor da angústia, como não sentir compaixão
e solidariedade para com os “perdedores” da história?

A necessidade de olhar o excluído e de sentir sua exclusão como uma interpelação e um chamado não é para nós moda nem sectarismo, mas o núcleo mesmo de nossa experiência espiritual tal como aparece nos Exercícios Espirituais e tal como Santo Inácio a viveu. Nos Exercícios Espirituais se encontra um inerente potencial, fonte de inspiração para o ministério da justiça.

Nos Exercícios Espirituais se encontra uma relação entre o impulso espiritual de seguir o Senhor e a ajuda aos pobres. É claro que o ‘amor preferencial pelos pobres’ está contido nos Exercícios. S. Inácio confessa nos Exercícios que para o homem a busca de Deus não é autêntica se não passa pelo cuidado amoroso pelo mundo dos pobres, e que, reciprocamente, não existe perfeito cuidado do homem e de modo particular do homem pobre, que não seja fruto de um descobrimento do amor de Deus que vem do alto” (P. Kolvenbach).

A experiência de Inácio de Loyola desperta em nós a compaixão para com o outro que é excluído, marginalizado, pobre. Somos chamados a viver a solidariedade como um estilo de vida, fundado no modo de viver de Jesus. A solidariedade significa encontrar-se com o “mundo do sofrimento, da injustiça, da fome, e não ficar indiferente”. A solidariedade que nasce da compaixão leva a reconhecer no outro (sobretudo o outro que é excluído) uma dignidade e uma capacidade criativa de superar sua situação. Isto pede de nós uma atitude de abertura ao outro, o que implica colocar-se em seu lugar, deixar-se questionar e desinstalar por ele. Importa, pois, redescobrir com urgência a solidariedade como valor ético e como atitude permanente de vida. Não uma solidariedade ocasional, mas uma solidariedade cotidiana que se encarna nos pequenos gestos de serviço no dia-a-dia.

Texto Bíblico: Lc 16, 19-31 / Mc 6, 30-44 / Mc 1, 40-45 / Mc 10, 46-52 / Mc 7, 24-40

 

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