O desejo de desejar

em 29 de outubro de 2019 por MAGIS Brasil

“Para o meu desejo, o mar é uma gota” (Adélia Prado)

No começo havia o Amor de Deus e o desejo que nascia deste Amor. Sem o desejo de criar do Criador, não existiria o universo. Sem o desejo de criar a humanidade à imagem de Deus, a humanidade não existiria. Sem o desejo de criação do artista, não existiria a arte. Uma pessoa que não tenha desejo não pode esperar nem viver. O desejo é como motor permanente que nos impulsiona a não permanecermos quietos, inertes ou paralisados pela desesperança. O desejo se converte, assim, em base de novos dinamismos mais fundamentais. É o suporte de nossa inquietude e a base para o desenvolvimento da esperança.

O desejo está no começo de tudo

A palavra desejo vem do latim, de-sid-ério, que provém da raiz “sid”, sideral, estrela, relativo a estrelas (de-siderare). Seguir o desejo é seguir a estrela, estar orientado, saber para onde se vai, conhecer a direção.

A oração preparatória nos Exercícios Espirituais, pedindo o que quero e desejo tem implicações práticas para a vida.  Nossa capacidade de querer e desejar está na raiz mesma de nossa existência humana e é a dinâmica profunda e básica de nossa vida. O desejo funciona na vida diária e está presente em todo crescimento humano. As petições, nos Exercícios Espirituais, são grandes desejos; a partir deles podem brotar outros desejos, que vem concretizar, atualizar aquele grande desejo. É importante conhecer nossos desejos: eles nos põem em contato com a verdade sobre nós mesmos e acabam por colocar-nos em contato com Deus.

Existe três níveis de desejo e estão plantados em nossos corações para fazer-nos crescer. É importante aceitá-los como são. Eles nos impulsionam para o nosso fim. Os desejos nos acompanham nestes três níveis durante toda a vida. Quando Jesus deu de comer a uma multidão, antes de tudo satisfez esta necessidade básica do alimento. E em seu encontro com a samaritana junto ao poço de Jacó, o tema de sua discussão partiu da necessidade básica de beber água.

1º nível – A esta categoria pertence nosso desejo de satisfazer nossas necessidades humanas básicas, já que não podemos viver sem sua satisfação. Neste nível falamos de desejos, cuja satisfação pode fazer-nos felizes, ao menos, por algum tempo. Mas não bastam. Por si sós não podem nos dar uma felicidade duradoura. Podemos advertir também que a satisfação destes desejos cria novos desejos. Estes são importantes para nossa vida. Nos inspiram para inventar, buscar, explorar e descobrir; numa palavra, nos impulsionam à ação. Seria um erro considerar estes desejos como algo inferior. Deus nos fala também neste nível.

2º nível – Vai mais fundo em nossa experiência pessoal. Não só experimentamos nossos próprios desejos senão também os de outras pessoas, que se fazem importantes e nos desafiam. Somos seres sociais e necessitamos relacionar-nos. Nossos desejos estão orientados para um tu. Quero amar e ser amado; necessito reconhecimento; quero ser membro útil da família humana. Este é o nível no qual encontramos o desejo de fazer algo pelos outros. Na satisfação de nossos desejos a este nível se adquire maturidade como homem ou mulher. Aí está o serviço.

3º nível – Nosso desejo existencial, nossa aspiração mais profunda subjaz a todos os outros nossos desejos. Esta aspiração mais profunda se esconde, às vezes, no que parecem desejos meramente triviais. A fé nos revela que é o fogo do Amor do Criador que arde em nossos corações e nos mantém vivos. Em todos os seres humanos existe a mesma fagulha de uma aspiração inextinguível, o mesmo desejo de felicidade e alegria.

Quando tomamos consciência e a entender esta nossa aspiração mais profunda, é um momento de graça em nossas vidas. Poetas, artistas, filósofos e teólogos tem tentado, durantes séculos, dar-lhe expressão. Sem a esperança e a promessa de satisfação, nossos desejos e nossas aspirações seriam uma tortura sem sentido.

A satisfação é Deus mesmo

Somente se conhecermos todos os nossos desejos e pormos à luz do amor e compassiva mirada do Senhor, cresceremos na relação pessoal com Deus. Como expresso meus desejos numa relação humana confiança e amor, devo fazer o mesmo na relação com Deus.

 “Tu nos fizeste para Ti, e nosso coração está inquieto enquanto não descansa em Ti.  Todo desejo de que Deus venha até nós já é oração. Há uma oração interior que nunca se acaba: teu desejo. Se desejas orar sem cessar, não cesses nunca de desejar”. (Santo Agostinho)

Texto Bíblico  Lc 19, 1-10

 

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