Faísca divina da inspiração

em 4 de dezembro de 2019 por MAGIS Brasil

“O ser humano é criado e é criativo”

No processo dos Exercícios Espirituais, a contemplação é de fato um momento inspirativo. Ao movimentar os sentidos interiores (olhar / escutar / observar) desperta-se a inspiração, a intuição, o desejo, o sonho, a criatividade. Ou seja, as camadas mais profundas do ser humano.

Imaginação, inspiração, originalidade, criatividade são o sal da vida e o sopro do Espírito, é o que faz sair luz das sombras e ordem da confusão, é o início de tudo. Tudo o que é novo começa por uma inspiração e o que não é novo é apenas repetição do que já foi. A criação é privilégio do Criador. Participar de alguma maneira humilde, simples, mínima, remota, parcial, relativa na emoção suprema da criação primeira é o prazer mais íntimo que o ser humano pode ter sobre a terra. A criatividade e a inspiração são a faísca do divino no coração do ser humano.  É a expressão da inspiração que, tal como vento, não se sabe de onde vem e nem para onde vai.

A gente não busca, ouve

Comentando sua experiência de inspiração, Nietzsche diz o seguinte: “Será que alguém, no fim do século XIX, tem uma ideia clara do que os poetas das eras fortes chamavam pelo nome de inspiração? Se não, vou descrevê-la. Repentinamente, com certeza e sutileza indescritível, algo se torna visível, audível, algo que nos sacode em nossas últimas profundezas e nos lança por terra. Não pede ou dá, aceita. Como o relâmpago, um pensamento se ilumina, com necessidade, sem hesitações com respeito à sua forma. Eu nunca tive qualquer escolha! Tudo acontece de forma involuntária no mais algo grau, mas como uma onda enorme de liberdade, um sentimento de algo absoluto, de poder, de divindade.”

O caráter involuntário da imagem e da metáfora, de tudo, é o mais estranho. Tudo se oferece como se fosse a expressão mais óbvia, mais simples. Parece, na verdade, para me referir a algo que Zaratustra diz, que é como se as coisas mesmas se aproximassem e se oferecessem como metáforas. (FN III, Ecce Homo).

Por que chega a inspiração no momento mais inesperado, nas circunstâncias menos favoráveis, no ambiente mais descontraído? Por que quando a chamamos não aparece, e quando não a esperamos apresenta-se arrebatadora, avassaladora, inevitável? Haverá maneira de adivinhar seus horários, calcular suas ausências, prever suas visitas? Não.

Nisso está precisamente seu atrativo, seu mistério e sua travessura. Nunca se sabe quando vai aparecer e por isso temos de estar sempre preparados para a acolhida. Por nossa conta não podemos fazer muito, apenas nos preparar, estar atentos, observar o horizonte, esperar a oportunidade. Mas quando a inspiração surge é preciso lançar-se. Quem hesita diante da oportunidade perde a vida, que é feita de oportunidades.

É preciso aprender a reconhecê-la, acolhê-la com imediata alegria e vontade decidida. Cada um deve inventar sua vida. A vida só tem sentido quando se torna história, isto é, quando não se limita a repetir o passado, que concebe algo novo a partir de uma origem. Todo ser humano experimenta, de alguma maneira, impulsos para a superação de si, sua vida está orientada para algo definitivo, pleno e ele vai construindo-se a si mesmo até converter-se em alguém único. A maneira de fazer isso não pode ser forçada, mas consiste em aceitar o que já se tem e, partindo daí, dar uma direção nova à sua história.

Ser aplicado ajuda a ser criativo      

Fernando Pessoa se espantava com as ideias que lhe vinham sem que as tivesse procurado. Depois de escrever, leio. Por que escrevi isto? De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu. Seremos nós neste mundo apenas caneta com tinta com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos? A criatividade e a inspiração não nos poupam do esforço.

A criatividade chega quando nos preparamos para ela. A divina inspiração vem quando quer, mas se não lhe fazemos a corte, não vem nunca. É preciso suplicar para que venha e deixá-la livre para vir quando quiser. Que o campo esteja limpo, regado e preparado para que a faísca possa mostrar seu poder.

É neste contexto que devemos tratar da espiritualidade: ela é uma das fontes primordiais de inspiração do novo, de esperança alvissareira, de geração de um sentido pleno e de capacidade de autotranscedência do ser humano.

 

Texto Bíblico  Is 40,1-11 / Is 65,17-25 / Br 5,1-9

 

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