Caminho do meio

em 16 de janeiro de 2020 por MAGIS Brasil

“Eu sei porque motivo o meio-termo não é seguido:
o homem inteligente 
ultrapassa-o, o imbecil fica aquém” (Confúcio)

Quando perguntaram ao rabino Menachem Mendel porque era tão radical e extremista, ele convidou seu inquisidor a se aproximar e disse: “Você vê? Os dois lados da estrada são para os seres humanos, apenas os cavalos transitam pelo meio!” Para o rabino, o caminho dos moderados, a mediatriz entre os extremos, é a senda dos cavalos. Em teoria, o caminho do meio nos parece equilibrado e maduro, mas o ser humano, que é profundamente mobilizado por uma intenção e sedento pelo sagrado, não pode deixar de ser passional e radical.

O “caminho dos cavalos” representa a postura daquele que teme a experiência radical de romper com o padrão e a expectativa da maioria, é aquele que opta pelo conhecido, pela segurança e pela comodidade. A mediocridade é a tentação de permanecer acampado, não reconhecendo ou legitimando o mar que existe para ser transposto.

Esta advertência bate de frente

Há uma expressão forte, usada quando, em determinadas circunstâncias, se deseja cobrar de alguém uma postura ousada, uma posição explícita ou uma atitude clara: “Deus vomitará os mornos!” Esta expressão vale também para aqueles que não ousam nunca, que optam pelo menos ou jamais se aproximam dos extremos, permanecendo naquilo que é proclamado como “seguro caminho do meio”, evitando-se, assim, qualquer risco ou ruptura da prudência. “Deus vomitará os mornos!” (Ap 3,15-16).

Esta advertência bate de frente com uma outra afirmação, que marca com intensidade a moral do nosso tempo: “a virtude está no justo meio”.  Trata-se de um ideal de moderação, uma referência de tranquilidade. Há dezenas de mitos, fábulas e histórias com a finalidade de exaltar o valor e a preferência pelo “caminho do meio, o que não se deve esquecer é que esse caminho pode também ser o da mediocridade”.

Em nome da sobriedade, da prudência e do comedimento, o máximo que se obtém em muitas situações é a “vida morna”, sem criatividade e ousadia, marcada por regras e constantemente refreada. Nesse sentido, para não ser morno, é preciso ser radical, ou seja, que se firma nas raízes, que tem convicções profundas. Radical é alguém que procura solidez nas posturas e decisões tomadas, não repousando na indefinição dissimulada e nas certezas medíocres, é alguém capaz de transgredir os próprios limites e dirigir o olhar para outras possibilidades.

É preciso ter limites

Mas estará o limite exatamente no meio? É essencial não ficar restrito ao confortável e letárgico centro. Muitas vezes o meio pode ficar inodoro, sem sabor e sem cor. Alguns desses desejos de romper fronteiras mornas só aparecem nos epitáfios, sempre em forma nostálgica e lamentadora de um eu que deveria ter sido. “Devia ter amado mais, ter chorado mais, ter visto o sol nascer; devia ter arriscado mais e até errado mais, ter feito o que eu queria fazer” (Titãs).

Quando alguém não vive profundamente, só lhe resta a rotina da vida e o vazio vital. Medíocre é a pessoa que não ousa, que não arrisca, que perdeu a capacidade de criar e inovar. A causa dessa mediocridade está em nós mesmos. Temos medo da originalidade de nosso ser pessoal, de sermos nós mesmos até a raiz. Preferimos refugiar-nos no “status”, na aparência, responder às demandas alheias, manter uma imagem aureolada. Resistimo-nos a ser livres a partir do risco da própria consciência.

Sem dúvida, a raiz da mediocridade é o pecado; mas um pecado solapado. Não será fácil desmascará-lo. Não se trata de atos gravemente pecaminosos. O medíocre não os tem. É necessário ir à raiz do pecado (pecado capital) que vai configurando progressivamente uma vida na mediocridade.

 

Texto Bíblico  Mt 5,13-16 / Ap 3,14-22

 

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