O meio ambiente é a face natural de Deus

em 27 de fevereiro de 2020 por MAGIS Brasil

“Pode parecer estranho que a figura de Inácio de Loyola tenha algo a nos dizer sobre ecologia.”

“A verdade é que a espiritualidade inaciana é muito mais integradora do que imaginamos. Inácio viveu e solidificou sua experiência de Deus de maneira unitiva, racional e afetiva. Sua relação com Deus e com a natureza se manifesta numa aplicação dos sentidos, da afetividade, como o olhar, o apalpar, o cheirar e o sentir, ajudando a interiorizar a sua experiência espiritual. Pensar, viver e sentir os frutos espirituais só é possível numa visão de amor presente em todas as coisas. Trata-se de uma relação de amor em que não se pode separar o divino, o humano e o cósmico, pois Deus está presente em tudo e em todos” (Pe. Josafá Siqueira, SJ).

A experiência inaciana dos Exercícios Espirituais desperta uma atitude contemplativa que nos impulsiona a buscar e encontrar Deus em todas as coisas da natureza e da vida humana e histórica. A recomendação inaciana “sejam frequentemente exortados a procurar em todas as coisas a Deus nosso Senhor, amando-O em todas as coisas, e amando a todas n’Ele” (Const. 288) não significa frieza e distância da Criação, senão sua máxima defesa e cuidado. Nesse sentido, a espiritualidade inaciana vai além de uma determinada experiência religiosa, ela se expressa como uma atitude amorosa para com todas as criaturas.

O Universo inteiro é um imenso altar

E neste altar podemos contemplar a presença do Criador. A espiritualidade inaciana reconhece uma imanência de Deus no cosmos, há uma divinização do universo, enquanto Deus está presente nele. Deus está em tudo, tudo está em Deus, tudo se reflete dentro de Deus. O Universo não é indiferente a Deus, pois está no Seu coração. A Criação, como dom recebido de Deus, situa-se no plano de uma sacralidade fundamental. Inácio considera Deus habitando nas criaturas, dando-lhes o ser, às plantas dando-lhes o crescimento, aos animais a sensação, aos seres humanos o entendimento (EE 235).

Presença operativa e de amor, porque Deus é amor. E sendo amor, irradia vida, graça, dom. Como tudo está ligado umbilicalmente a Deus, é a partir de Deus que encontramos o todo. Deus penetra no coração de cada coisa e cada coisa se encontra em Deus. A experiência dos Exercícios Espirituais nos ajuda a descobrir esse Deus que está presente em todas as coisas, mas oculto sob mil sinais. O Universo é um grande sacramento, a Matéria é sagrada, a Natureza é espiritual, porque é Templo de Deus.

Essa espiritualidade, na perspectiva ecológica, visa, portanto, recuperar a sacralidade fundamental de todas as criaturas. O horizonte da Criação, revelado pelo “Princípio e Fundamento” e pela “Contemplação para alcançar amor” suscita ao exercitante uma atitude sabática de adoração.

De fato, na perspectiva bíblica, o ponto alto da Criação é o Sábado, a partir do qual se entende a relação e a comunhão do ser humano com a natureza, numa atitude de permanente louvor (espanto e admiração diante da beleza da Criação e da presença divina que a conduz à plenitude). A espiritualidade inaciana, na perspectiva ecológica, se opõe ao utilitarismo da natureza. A natureza não é vista, unicamente, como sendo uma mediação criada só para servir ao ser humano, mas também como lugar e meio para “louvar, reverenciar e servir o Criador”.

Sendo criado e criativo

Nossa humanidade denuncia a destruição e morte da vida da natureza e dos seus irmãos e irmãs, e anuncia um Reino de vida e de harmonia entre todas as criaturas. Nesse sentido, a espiritualidade inaciana é aquela que nos ajuda a superar as dicotomias na busca da unidade e da totalidade: ciência e mística, mundo físico e espiritual, corpo e espírito, céu e terra. Tudo se encontra em profunda harmonia e em íntima intercomunicação.

Texto Bíblico  Gn 1

 

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