Um fogo que acende outros fogos

em 3 de novembro de 2021 por MAGIS Brasil

Nesta semana de oração pelas vocações à Companhia de Jesus, somos convidados e convidadas a contemplar a vida e obra de alguns jesuítas como inspiração para nossa resposta pessoal à nossa vocação cristã.

Hoje, em especial, temos a oportunidade de meditar sobre a ação do Espírito Santo na vida de Santo Alberto Hurtado e Padre Pedro Arrupe, que, atentos ao chamado de Deus, aos movimentos interiores desencadeados pela percepção fraterna do outro e das necessidades mais prementes do seu tempo, mobilizaram outras pessoas de boa-vontade e, apesar das dificuldades, transformaram sua realidade, iluminando-a com a luz viva de Jesus ressuscitado.

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Para este momento de oração, escolha um lugar tranquilo e agradável, sem interferências externas, crie um ambiente propício para a meditação e se coloque em uma posição corporal confortável. Faça silêncio exterior e interior, permitindo que Deus lhe contemple e lhe fale ao coração. Tomando consciência de que está na presença de Deus, faça com devoção o sinal da cruz. Enquanto ouve esta música, respire lenta e suavemente.

Pedido de graça

Senhor Jesus, nós te pedimos que a muitos escolhas e chames, que a muitos chames e envies, conforme tua vontade, para trabalhar pela Igreja em tua Companhia. Pouco ainda fazemos e tanto mais poderíamos fazer, se não fosse nossa fraqueza nossa omissão. Por isso, Senhor Jesus, fica sempre à frente na história de nossa vida e na daqueles que escolheste para teu serviço, para que não deixe de realizar, por negligência nossa, a totalidade do teu projeto de amor. Amém.

Texto Bíblico | Mateus 5, 13-16

Vós sois o sal da terra. Se o sal perde o sabor, com que lhe será restituído o sabor? Para nada mais serve senão para ser lançado fora e pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre uma montanha nem se acende uma luz para colocá-la debaixo de uma vasilha, mas sim para colocá-la sobre o candeeiro, a fim de que brilhe a todos os que estão em casa. Assim, brilhe vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus.

Reflexão

No texto bíblico de hoje, Jesus nos convoca a colocarmos nossos dons a serviço do Reino, a darmos sabor à existência humana e a iluminarmos toda a criação com a luz da Boa Nova, que deve ser anunciada por meio de nossa vida, inspirando outros a também se entregarem esse projeto de amor.

Assim foi a vida dos dois jesuítas lembrados hoje: Santo Alberto Hurtado, padre jesuíta chileno que viveu na primeira metade do século XX, e Pedro Arrupe, padre espanhol que foi Superior Geral da Companhia de Jesus entre 1965 e 1983.

Padre Hurtado, como era conhecido, tinha profunda vida de oração e, de sua proximidade com Deus, sentiu-se impelido a se entregar à causa dos mais necessitados, dos abandonados, dos indesejáveis.

Tocado pelo sofrimento das pessoas em situação de rua, principalmente das crianças, com o apoio de um grupo de fiéis, fundou o Lar de Cristo, instituição que acolhia e cuidava dos marginalizados e, posteriormente, além de ampliar o número de casas e o público de assistidos, sem descuidar de suas necessidades imediatas, passou a oferecer-lhes suporte para que superassem a situação de miserabilidade em que viviam.

Hurtado desenvolveu importante trabalho junto aos jovens, com os quais se comunicava com grande desenvoltura, seja atuando como professor, seja se dedicando à direção espiritual e à formação de inúmeros leigos e sacerdotes, a quem não se cansava de transmitir seu profundo amor pessoal por Cristo e seu zelo pela justiça social, conclamando-os a atuarem para conformar sua realidade à doutrina cristã, fazendo deste o núcleo de seu ministério.

Seguindo o mesmo movimento de entrega de si em favor dos outros, também colocou seus conhecimentos jurídicos, sua capacidade de comunicação e seu carisma a serviço dos operários, aos quais chamava a se unirem para buscarem melhores condições de trabalho, além de promover a congregação de entidades que representavam os trabalhadores, incentivando não apenas a luta política, mas também a criação de espaços em que pudessem confraternizar e compartilhar os valores cristãos.

Dizia o jesuíta que “é indispensável abordar com seriedade e valentia alguns problemas econômico-sociais do país para dar ao nosso povo tais condições para que sua vida chegue a ser verdadeiramente humana”.

Devido à notável fidelidade aos ensinamentos e ao modo de proceder de Jesus Cristo, atuando com seriedade e compromisso a serviço dos menos favorecidos e buscando chamar outras pessoas a trabalhar pelo Reino de Deus, Santo Alberto Hurtado é conhecido como o apóstolo do século XX.

Com igual dedicação aos irmãos e entrega a Deus, Pedro Arrupe, um espanhol nascido em Bilbao (País Basco) em 1907, viveu com profunda caridade períodos de intensos conflitos e mudanças culturais, políticas e eclesiais. De acordo com o Padre Arturo Sosa (atual Superior Geral da Companhia de Jesus), “desde seu encontro pessoal com Cristo, que se converteu no centro de sua vida, o Padre Arrupe ardeu de fogo missionário, aceso pelas faíscas do Evangelho”.

Ainda jovem, tomado por um irresistível amor a Deus através dos pobres e sofredores e imbuído de espírito missionário, Arrupe deixou a faculdade de medicina para ingressar na Companhia de Jesus. Poucos anos depois, ele veria a proibição das atividades da Companhia e sua dissolução na Espanha, tendo que concluir sua formação na Bélgica.

Após sua ordenação, foi enviado para exercer seu apostolado junto aos imigrantes mexicanos no Sul dos Estados Unidos e, posteriormente, junto aos encarcerados de origem latina em Nova York, onde chegou a afirmar que “não há melhor pregação do que a caridade” e que “o carinho é capaz de arrancar lágrimas das próprias pedras”.

Em seguida, foi enviado ao Japão, conforme o desejo que tinha há muitos anos, desde quando começou a estudar a vida de São Francisco Xavier. Naquele país, em agosto de 1945, era superior de noviços quando presenciou o bombardeio atômico na cidade de Hiroshima, a poucos quilômetros do noviciado jesuíta, que, embora parcialmente destruído, foi transformado em enfermaria onde eram tratados os sobreviventes que Arrupe e os noviços traziam da cidade destruída.

Cerca de duas décadas mais tarde, em uma época de transformações profundas, na qual ainda se viviam as sombras geradas pelos conflitos recentes e na qual a própria Igreja foi chamada a rever sua posição no mundo, Pedro Arrupe foi eleito Superior Geral da Companhia de Jesus.

Sempre fiel a Cristo e à Igreja, tendo a mesma percepção que Santo Inácio de que Deus se faz próximo de nós, se deixa encontrar em todas as coisas e nos chama constantemente a colaborarmos com a construção do Seu Reino neste mundo, Arrupe tratou de implementar no âmbito da Companhia as diretrizes oriundas do Concílio Vaticano II, ciente de que a Igreja e os jesuítas (que são operários dela) não podem fechar os olhos às injustiças humanas nem podem se afastar da missão de ajudar os pobres, promovendo reconciliação e justiça, apesar dos muitos desafios e riscos inerentes a essa postura.

Na década de 1980, impressionado pelo sofrimento dos refugiados e tocado pelo Espírito, Arrupe criou o Serviço Jesuíta aos Refugiados, mobilizando jesuítas e companheiros leigos em todo o mundo nessa que hoje é uma das principais frentes de atuação da Companhia. Esse Serviço está organizado em cinquenta países e oferece serviços gratuitos que contemplam desde intervenções assistenciais emergenciais até projetos de educação, integração, apoio psicossocial e pastoral.

Nos últimos anos de sua vida, embora limitado por severos problemas de saúde, especialmente em decorrência de uma trombose que o acometera em 1980, Arrupe dizia se sentir “mais que nunca, nas mãos de Deus”, algo que teria desejado por toda sua vida e que continuava a desejar, mas que então passou a depender exclusivamente da iniciativa do Criador.

Devido à sua sensibilidade à presença de Deus e às necessidades dos irmãos, com sua criatividade e capacidade de mover os outros a responderem ao chamado divino, tratando de cuidar desde o século passado de um dos principais dramas humanitários da atualidade, a migração forçada de pessoas, Pedro Arrupe é considerado testemunha das mudanças ocorridas no Século XX e profeta do Século XXI.

Os exemplos de Santo Alberto Hurtado e Pedro Arrupe, que enxergaram o mundo e sua época à luz de Cristo, nos exortam a entendermos os sinais e desafios do nosso tempo como oportunidades para desenvolvermos nossa missão cristã, atualmente iluminada pelas Preferências Apostólicas Universais, renovando nosso compromisso com Deus e com toda a criação, especialmente com os irmãos e irmãs mais vulneráveis, inspirando e convocando outras as pessoas de boa-vontade para que, unidos em Cristo e ungidos pelo Seu Espírito, deixemos despertar em nós a sensibilidade, criatividade e disponibilidade necessárias para construirmos um mundo mais justo e fraterno, percebendo e acolhendo em nós a misericórdia salvífica de Deus, divulgando-a e multiplicando-a através de um modo de vida evangélico.

Em outras palavras: ao passarmos a “ver novas todas as coisas em Cristo”, como nos exorta o tema do Ano Inaciano, tendo abertura, disponibilidade e generosidade para nos deixarmos conduzir pelo Espírito e para suportar as dificuldades que se apresentam, estamos assumindo dignamente nossa missão de ser sal da terra e luz do mundo, dando sabor e iluminando não apenas a nossa existência pessoal, mas também inspirando e movendo a daqueles que conosco compartilham o dom da vida, sendo verdadeiro fogo que acende outros fogos.

Provocações

  • Tenho tido disponibilidade para ouvir, entender e atender ao chamado de Deus para minha vida? Tenho desejado sinceramente ver novas todas as coisas em Cristo?
  • O que tenho feito para manter acesa a chama da fé que arde em meu coração e no coração do próximo? Tenho rezado e agradecido pelas diversas vocações (pelas vocações à Companhia de Jesus, inclusive)?
  • Tenho tentado contagiar os outros com a alegria do Evangelho? Tenho me engajado em alguma obra ou serviço aos menos favorecidos (material ou espiritualmente)? Até que ponto me deixo iluminar e contagiar pela vivência evangélica de outros, como dos jesuítas lembrados hoje?
  • Neste momento, o que a luz de Cristo ilumina diante de mim? A que me conduz? Como posso levar a mais pessoas, em diversos contextos existenciais, a luz e o calor do Evangelho?

Revisão

Recordo o meu encontro com Deus. Anoto o que foi mais importante na oração: texto mais significativo (palavras, frases e imagens); pensamentos predominantes; questionamentos; os sentimentos de consolação e desolação; se houve apelos e como me senti diante deles.

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