“Eu sou maior do que era antes, e sou melhor do que era ontem” (Dani Black)

Cego Bartimeu: “bar”, em aramaico, significa “filho de”. Ele é um homem sem nome, conhecido simplesmente como filho de Timeu. Isso mostra que o cego não é conhecido pelo nome, mas pela procedência. Há um problema de identidade. Ele está cego, é dependente, quando conquistar a visão poderá ter nome próprio. O filho de Timeu posta-se junto à porta que vai de Jericó a Jerusalém. É um ponto estratégico. Todos os peregrinos que vêm da Transjordânia e muitos da Galiléia e de Samaria passam por ali para ir a Jerusalém. Jesus também vai passar por ali. É difícil que alguém escape daquele ponto. Ele está atento.

Em lugar de caminhar, assiste os caminheiros. Aprendeu a aproveitar-se deles, pedindo esmolas. Nem Jesus escapa: clama, grita em sua busca da visão. Os que acompanham Jesus não se importam com quem está à margem, pelo contrário, repreendem sua iniciativa. Mas o filho de Timeu não se curva aos que mandam calar. Já que os que deviam ajudar o atrapalham, ele precisa gritar mais forte para não perder a chance. A hora é agora e não há tempo a perder. O grito é tão forte que supera a barreira da multidão e chega até Jesus. Só ele sabe o incômodo que é estar cego, esmolar, vivendo fora da cidade, à margem do caminho.

Jesus ouve, para e o chama para junto de si, para o meio do povo que o forçava ficar à margem. Ao ser chamado, o filho de Timeu joga o manto-capa, dá um salto, vai a Jesus e pede para ver novamente. A capa que ante o acompanhava e protegia é abandonada. Fica lá, na beira da estrada, marcando o lugar da mudança. A imagem que ela apresentava é coisa do passado. A capa continua lá no mesmo lugar, mas Bartimeu, agora tomado pelo olhar de Jesus, é homem do caminho, discípulo, seguidor de Jesus. Agora ele vê, as vendas lhe foram removidas. Com o ver dado por Jesus, Bartimeu se faz caminheiro. Engaja-se no dinamismo da vida que enfrenta o sofrimento, as adversidades e a morte. Toma, com Jesus, o rumo de Jerusalém.

Ao chamado de Jesus, reage dando um salto

Salta para um novo ver, salta ainda mais para um novo ser. Salta da vida sem graça, limitada a pedinte da margem do caminho, para a graça da vida de caminheiro solidário rumo à transformação. A existência humana pode ser marasmo, sonolência, estagnação, medo, repetição, inércia e fixismo. Mas ela pode ser conduzida também com sabedoria e imaginação. O movimento criador pode superar o marasmo e a acomodação, nosso interior contém potencial para vencer a inércia e superar o medo.

Para isto, deve suscitar e cultivar o legítimo “salto”, que é fenômeno inovador e fecundo. É importante descobrir o real significado do salto que nos arranca do passado paralisante e nos lança na aventura que modela a vida pessoal, social, ética, religiosa, histórica. O salto consciente estimula a criatividade e rejeita a mediocridade. É importante ter clareza da direção para onde saltamos. Há saltos equivocados: salto amargo, salto pessimista, salto frustrado, salto mortal, salto no escuro, salto na fuga, salto no desespero, salto na tragédia, salto no suicídio. Há saltos perversos: salto dos mais fortes sobre os mais fracos, salto autoritário, salto dos prepotentes.

O verdadeiro salto humano tem sentido de inovação

É o salto da múltipla criação, o salto da gênese permanente e da história inacabada. Salto é o acontecer inesperado, é o surgir repentino, é o germinar da realidade, é o despontar da madrugada. O salto acorda o espírito, solta a liberdade, assume a responsabilidade e aponta o destino inédito. Salto é também ruptura, de fato, rompe obstáculos e desloca resistências. O salto é surpreendente. Há salto que só se realiza com a quebra da rotina. E cada salto inspirado, pessoal ou social, inaugura novo salto para a humanidade. É hora de um salto arrojado, e não de covardia. É tempo de assumir o salto. É salto para acordar, salto para pensar, salto para viver, salto para criar, salto para clamar, salto para partir e salto para construir.

O salto envolve a totalidade de ser humano, busca a verdade, busca a ciência, busca a ética, busca a estética, busca a utopia, busca o direito, busca o salto da inovação. O salto original gera o crescimento da humanidade. É salto que ama as pessoas, que ergue os fracos, que promove a justiça, que preserva a paz, que semeia a esperança, que respeita o diferente, que congrega povos, que dinamiza os talentos pessoais, salto que valoriza compromissos. O salto infatigável concretiza as aspirações do futuro. O salto lúcido mantém o olhar vigilante, de discernimento: em que direção saltar?

Texto Bíblico  Mc 10, 46-52

 

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