A força de uma comunidade cristã consiste na diversidade de seus membros. Quando partilhamos em comunidade, tomamos consciência de nossas semelhanças e diferenças, de nossas expectativas e temores. O conflito é inevitável nas relações humanas; ele começa quando nossas necessidades, desejos, valores e ideias chocam-se com as necessidades, desejos, valores e ideias dos outros. Como comportar-se no conflito e Como sustentar uma posição quando o outro tem uma parcela da verdade? Como manter uma posição firme sem a certeza total? Como impedir que as dúvidas nos paralisem? Estas e outras questões nos angustiam quando nos vemos em meio a um conflito.

Cada pessoa é única, original e sagrada

O conflito nem sempre pode ser atribuído a um mal moral, ele pode ser construtivo ou destrutivo, dependendo da atitude que se adota diante dele. Pode-se ignorá-lo, não reconhecer sua existência, pode-se recusar enfrentá-lo porque tem-se medo dele, ou mesmo quando se está consciente dele, não vê-lo como problema, como nosso problema, ou ainda reconhecer sua existência, mas banalizá-lo ou minimizá-lo, não se responsabilizando por ele. No entanto, o conflito pode converter-se em fonte de crescimento quando uma comunidade deixa de negá-lo ou evitá-lo, mas quando aprende a manejá-lo com atitudes de respeito, compaixão e compreensão. O conflito aprofunda e purifica a existência, aprende-se a discernir entre o essencial e o acidental e a despojar-se do inútil ou supérfluo para ficar com o que é mais importante.

O conflito se converte numa experiência positiva quando nos motiva a desenvolver novas destrezas, nos anima a buscar meios para manejar problemas, estimula nosso interesse pela comunidade e nos aproxima dos outros, nos leva a esclarecer nossos pontos de vista e a reexaminar nossas posturas. Os conflitos demandam nossos maiores recursos criativos.  As crises e os conflitos não só fazem parte da existência humana e cristã, senão que podem ser vividos de um modo cristão, encontrando neles um sentido, uma direção sobre o qual apoiar, para que o resultado seja o de um crescimento da própria identidade pessoal e comunitária.

Os conflitos balizam a forja da identidade, já que esta nunca está pronta. Tanto no processo do desenvolvimento humano pessoal como na configuração de uma comunidade, os momentos de conflitos são inevitáveis. Nesses momentos densos, de encruzilhada e de resistência, abre-se a possibilidade de descobrir um renovado sentido de unidade e consistência, que permite ao sujeito (pessoal ou comunitário) sentir-se a si mesmo no meio de constantes tensões. Os conflitos abrem a possibilidade de intuir novas potencialidades ou pôr em jogo recursos que, até o momento da crise, talvez não tivesse necessidade de usá-los. Por isso, os conflitos obrigam geralmente a uma tomada de decisão inadiável. A realidade é dinâmica, move-se, evolui. O absurdo de querer fixá-la em esquemas teóricos e modos ultrapassados de comportamento, fatalmente conduz ao confronto de forças, de ideias, de visões diferentes.

Os conflitos revelam o movimento da vida

Passar por conflitos é sempre doloroso e é impossível vivê-los sem experimentar um certo desequilíbrio e mal-estar. Sua presença põe às claras as vulnerabilidades de cada pessoa bem como situam o ser humano frente à realidade de sua própria finitude e de seus próprios limites. Um dos sentimentos mais fortes que aparecem é a sensação da demora daquilo que esperamos e a distância entre o que esperamos e o que, de fato, vivemos.  

Santo Inácio, antes de começar os Exercícios Espirituais, nos apresenta uma dica valiosa que ajuda a manejar os conflitos nas relações interpessoais. Ele indica o Pressuposto (EE 22) com a finalidade prática de evitar mal-entendidos, más interpretações, preconceitos. Muitas vezes desconfiamos daquilo que o outro nos diz, o relativizamos, o desvalorizamos, o olhamos com suspeita e reserva. Em qualquer conflito, a desconfiança e a suspeita sobre a veracidade da palavra dos agentes do conflito são já partes do conflito.

Por isso, nos conflitos, abalam-se as certezas e o horizonte fica obscurecido.  Este sentimento de impotência, precariedade e provisoriedade do humano pode ser bom: ajuda a superar o espírito voluntarista, a auto afirmação radical da pessoa que a leva a buscar em si mesma sua raiz e seu fundamento; ajuda a superar o espírito messiânico e a vontade de onipotência, que a leva a pretender resolver todos os problemas, solucionar todas as questões, ter a última palavra; ajuda a superar dogmatismos e posturas intolerantes; ajuda a dominar a busca de poder, o afã de subordinar ou neutralizar o diferente; ajuda a clarificar muitos mal-entendidos que surgem pelo próprio fato de misturar assuntos objetivos com afetos e sentimentos; ajuda, enfim, a referir-se mais humildemente ao outro, de quem se recebe o fundamento e a existência, o sentido e a força.

Texto Bíblico  Mc 10, 35-45

 

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